Sophia de Mello Breyner Anderson – a voz femenina da poesia do século XX em Portugal

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, no dia 6 de Novembro de 1919. O seu pai, João Henrique Andresen, era neto de um dinamarquês, Jan Henrik, que se fixou no Porto e que ali fez fortuna, primeiro no sector da cabotagem, depois no negócio dos vinhos. A mãe, pertencia a uma família aristocrática de fortes tradições liberais.

O exemplar sentido de justiça de Sophia, bem como a coragem de que sempre deu provas ao longo da vida, são qualidades que nunca escassearam nos vários ramos da sua família materna.

A infância e adolescência decorreram na quinta portuense do Campo Alegre, adquirida pelo seu avô Andresen no final do século XIX. “Um território fabuloso”, assim a evocaria mais tarde a própria autora. Uma parte do que dele resta é hoje o Jardim Botânico do Porto.

O primeiro livro, uma escolha dos muitos poemas que então já escrevera, saiu em 1944, tinha Sophia 25 anos, numa edição de 300 exemplares financiada pelo pai. Chamava-se apenas “Poesia” e, na sua concisa e despojada perfeição, continua a ser um dos mais espantosos livros de estreia da poesia portuguesa contemporânea.

Na segunda metade dos anos 50 Sophia opõem-se abertamente ao salazarismo. São vários, de resto, os poemas de “Mar Novo” nos quais se pode ler um ataque ao regime “Porque os outros se mascaram mas tu não/ Porque os outros usam a virtude/ Para comprar o que não tem perdão./ Porque os outros têm medo mas tu não.”

Ainda antes do 25 de Abril, Sophia integrou a Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos. Alguns dias depois, no 1º de Maio, milhares de manifestantes gritaram em Lisboa uma palavra de ordem lançada por Sophia (e depois imortalizada num célebre quadro de Vieira da Silva): “A poesia está na rua.”

A cidade, o tempo, o mar, o humanismo, a natureza e o amor, são elementos essenciais da obra poética de Sophia.Era também admiradora da literatura clássica. Nos seus poemas transparecem frequentemente referências ao culto pela arte e tradição próprias da civilização grega.

Autora de diversos livros de poesia escreveu também contos, artigos, ensaios e peça teatral. Traduziu para o português as obras de Eurípedes, Shakespeare, Dante e Claudel. Para o francês traduziu Camões, Mário Sá-Carneiro, Cesário Verde, Fernando Pessoa, entre outros.

O espectáculo de dança inspirado no conto O Cavaleiro da Dinamarca no Centro Cultural de Belém, inicia em Portugal as comemorações do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) que terá lugar por todo o país ao longo deste ano. Da programação já anunciada, destaca-se uma sucessão de colóquios e ciclos de conferências que se iniciará em Maio na Gulbenkian, em Lisboa.

 

Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes toscoOra me lembra escravos
Ora me lembra reisFaz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafrePois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Geografia”

MAR
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.