Paula Rego – a pintora que conta histórias

Paula Rego é uma das figuras proeminentes da arte portuguesa, celebrada no mundo das artes pela sua expressão sombria do universo feminino português. Com vida e obra em Londres, é com naturalidade que expressa influências das escolas deste país mas é também com prazer que discursa sobre o seu país de origem.

Maria Paula Figueroa Rego nasceu a 26 de janeiro de 1935 em Lisboa no seio de uma família de classe média. O seu agregado familiar fragmentou-se cedo em 1936 quando o seu pai foi trabalhar para Inglaterra e a sua mãe o acompanhou. Assim, a jovem ficou ao cuidado da sua avó até 1939, tornando-se numa agente educacional na sua formação humana e cultural. Os contos tradicionais que tanto ela como a governanta da sua casa lhe contavam tornaram-se influências marcantes no seu trabalho artístico futuro.

”Quanto eu tinha 15 anos, meu pai me chamou e disse que eu tinha que ir embora de Portugal, porque não era um país bom para as mulheres”, afirma Paula numa entrevista concedida em 2009. “As mulheres não podiam nem ter conta bancária. Os maridos mandavam e batiam nelas.”

Aos 16 anos emigrou para o Reino Unido e casou com o pintor  Victor Willing, voltando com este para Portugal em 1957 engravidando ainda enquanto estudava. O casamento de ambos decorreu em 1959, após o inglês se ter divorciado da sua primeira esposa. Três anos depois, o pai da lisboeta comprou uma casa para o casal em Londres, na Albert Street situada em Camden Town, e o tempo de ambos tornou-se dividido entre Portugal e Inglaterra.

Salazar a vomitar a pátria (1960)

 

Após a morte do pai da portuguesa, em 1966, o negócio da família foi assumido pelo marido dela, apesar deste se encontrar constrangido por uma esclerose múltipla. Com a Revolução de 1974,  o negócio terminou e o casal, já com três filhos, emigrou permanentemente para Londres e por lá ficaram na maioria do seu tempo até à morte do segundo, em 1988. Desde então, a portuguesa repartiu o seu tempo entre Lisboa e Londres, obtendo um grande prestígio pelo seu êxito criativo em quantidade e qualidade. Alguns dos principais espaços em que proporcionou exposições da sua autoria foram na Fundação Calouste Gulbenkian (1988),  na National Gallery (1991) e na Tate Britain (2004).

A arte de Paula Rego expressa uma intensa força narrativa, às vezes brutal, sobre a desigualdade entre os sexos, o aborto ilegal e a opressão da mulher. O grotesco, o ambíguo, mas também o sentido de humor e o carinho atraem o público. As cores intensas e o movimento das figuras, algo surrealistas, sugerem que, por trás, há uma alma em batalha com seus demónios, e, na vanguarda, uma celebridade artística de primeiro nível. “Tenho medo de tudo, do escuro e de mim mesmo”, explicou a pintora na inauguração do seu museu, em Cascais. “Pinto para dar face ao medo.”

Quando, em 1998, a proposta de legalização do aborto em Portugal foi derrotada em um primeiro referendo, a aclamada pintora Paula Rego produziu uma série de dez  quadros em pastel que, sem rodeios, retratam mulheres vivendo situações de abortos. Em entrevistas com a imprensa portuguesa, quando a série foi exibida, Paula Rego disse que ele  foi inspirada por suas próprias experiências de aborto e pelos casos que  testemunhou das mulheres mulheres pobres que viviam nas aldeias ao redor da área da Ericeira, onde ela cresceu. Comentando a série, Rego disse: “O naturalismo está  muito fora de moda, mas eu não me importo. Estas pinturas silenciosas, com as suas graves respostas  irão resistir”.

Em 2017, o seu filho Nick Willing realizou um documentário sobre a sua mãe, como artista e mulher. Uma excepcional introdução à obra de Paula Rego.